Ideias na Mesa - Blog


postado por Equipe Ideias na Mesa em Terça-feira, 04 de Julho de 2017

O Ideias compartilha o texto de Renata Menasche, Carmen Machado e Vania Thies mostrando o belo trabalho desenvolvido pela equipe de pesquisa Saberes e Sabores da Colônia para documentar o patrimônio alimentar da região da Serra dos Tapes.   

Desde 2011 a equipe multidisciplinar reunida em torno da agenda de pesquisa Saberes e Sabores da Colônia tem percorrido a Serra dos Tapes, tomando o estudo das práticas relacionadas à alimentação como forma de entender esses contextos rurais. A Serra dos Tapes é uma região situada ao sul do Rio Grande do Sul, delimitada por áreas que foram historicamente ocupadas por grupos indígenas, negros fugidos ou libertos da escravidão e camponeses com origem na imigração europeia, os colonos. No mapa apresentado abaixo, estão indicadas algumas das localidades em que se realizaram as inserções de pesquisa, nos municípios de Canguçu, Pelotas e São Lourenço do Sul.

Figura 1 – Algumas das localidades em que se realizaram as inserções de pesquisa da agenda Saberes e Sabores da Colônia.

Fonte: Laboratório de Estudos Agrários e Ambientais, 2013.

Esse estudo se desenvolve em um quadro em que podemos notar, por um lado, uma ansiedade urbana contemporânea em relação à alimentação e, por outro, a expressão, nas classificações da alimentação operadas por consumidores urbanos, de um rural valorado positivamente, idealizado, que ao demandar alimentos – mas também paisagens, costumes, festas, história, turismo –, interfere na conformação do rural vivenciado pelos que nele habitam. O trabalho conduz o olhar às práticas alimentares para mostrar diluições e redefinições de fronteiras, dentre outras aquelas entre campo e cidade. Nesse quadro, receitas herdadas, pratos tradicionais, produtos e ingredientes locais, espécies e variedades nativas, práticas da alimentação cotidianas ou rituais, utensílios e objetos que conformam a cultura material relacionada à produção e consumo de alimentos, mecanismos de sociabilidade em que se dá sua circulação e, ainda, espaços em que se realizam atos associados ao comer são percebidos enquanto elementos que compõem sistemas culinários, cuja diversidade é expressão de modos de vida e visões de mundo de grupos sociais específicos, marcando pertencimentos e distinções identitárias.

Entre as diversas iniciativas de pesquisa realizadas, no contexto das colônias Maciel e São Manoel, município de Pelotas, elegemos a cozinha como espaço privilegiado de observação para estudar práticas alimentares cotidianas de famílias rurais descendentes de imigrantes italianos. A inserção de pesquisa se deu pela cozinha da Comunidade Católica Sant’Ana, no preparo e realização de festas, seguindo para as cozinhas de algumas das famílias pertencentes a essa comunidade.

Na localidade, realizam-se diferentes tipos de festa. Há aquela preparada por e para os membros da comunidade, a Festa de Sant’Ana, comemoração religiosa. Nela a comida é elaborada a partir de produtos da colônia e de itens industrializados: os bolos de caixinha são preparados tendo a temperatura do forno medida com folhas de bananeira. Aí a tradição – reafirmando identidades – se faz presente, ainda que atualizada a partir de técnicas e ingredientes modernos[i]. E há a festa preparada pela comunidade para um público externo, a Festa do Dia do Vinho, quando a comida é elaborada a partir de produtos da colônia para um público urbano, ávido por consumir o vinho, a comida e, mais que tudo, por travar contato com o rural de seu ideário.

     

Da cozinha da comunidade conduzimos o olhar à cozinha das famílias, atentando para o cotidiano de trabalho, seus saberes e práticas alimentares. No contexto de mudanças advindas com a modernização da agricultura, observamos que assim como a lavoura passou por processo de transformação, com aquisição de máquinas, equipamentos e produtos químicos, também a cozinha sofreu alterações, o que é evidenciado pela aquisição de fornos elétricos, máquinas de preparar pão, liquidificadores, batedeiras, entre outros eletrodomésticos que hoje estão presentes. A intensificação na utilização de produtos industrializados está presente também nos ingredientes utilizados, conformando o que podemos considerar um “cardápio híbrido”, conformado por produtos da colônia e industrializados.

A polenta e o vinho, apresentados nas festas como símbolos da cultura italiana, também estão presentes na alimentação diária das famílias e são alimentos culturalmente valorizados. O vinho é comumente produzido para o consumo familiar, sendo que algumas famílias o produzem em maior escala, para comercialização. Mas vinho e polenta, símbolos da culinária italiana, estão à mesa das famílias de descendentes de imigrantes italianos e também de alemães e brasileiros, evidenciando que, nas localidades estudadas, a italianidade pode ser interpretada como elemento que constitui uma “identidade colona compartilhada”.

Entre outros temas que têm recebido atenção da equipe de pesquisa Saberes e Sabores da Colônia estão os panos de parede, encontrados na localidade de Nova Gonçalves, no município de Canguçu/RS, localidade de origem predominantemente pomerana. Os panos de parede, bordados por mulheres pomeranas, ficavam pendurados na parede das casas para enfeitar a sala ou a cozinha, atrás do fogão à lenha, sendo ainda usados no dia de festas de casamento, com dizer específico referente à data. Além de apresentar flores, ramos, animais ou os próprios utensílios de cozinha, muitos apresentavam escritos em alemão, que assim eram porque na época em que foram bordados não se tinha ainda o conhecimento da escrita pomerana. Atualmente, os panos de parede podem ser considerados patrimônio da localidade, presente na memória de sua gente. Mais recentemente, temos iniciado a estudar cadernos de receita, que trazem a alimentação como um saber fazer das mulheres camponesas.

    

                                                                                       "Os convidados já estão convidados para o assado de coelho e pato."

Este trabalho é conduzido a partir do Grupo de Estudos e Pesquisas em Alimentação e Cultura (GEPAC). Os artigos e vídeos produzidos podem ser acessados no site do GEPAC (https://www.ufrgs.br/gepac/) e ali também são encontradas informações sobre o livro produzido a partir destas iniciativas de pesquisa, Saberes e sabores da colônia: alimentação e cultura como abordagem para o estudo do rural.


Renata Menasche – Doutora em Antropologia Social, Professora do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPel e do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural da UFRGS

Carmen Janaina Machado – Mestre e Doutoranda em Desenvolvimento Rural pela UFRGS

Vania Grim Thies – Doutora em Educação, Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPel


[i] Assista ao vídeo Festa na colônia, festa de Sant’Ana, que mostra esta festa: https://vimeo.com/108127792



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