Ideias na Mesa - Blog


postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 24 de Novembro de 2015

No quadro de hoje nós apresentamos alguns trechos da entrevista da agrônoma e integrante da Sempreviva – Organização Feminista e militante da Marcha Mundial das Mulheres – Miriam Nobre , presente na 6ª edição da Revista do Ideias na Mesa que teve como tema: Cozinha: lugar de todos.   

No movimento de mulheres, ela tem dedicado um importante espaço à discussão sobre as transformações do papel feminino no cuidado com a família, e especialmente ao cozinhar. Durante a entrevista, Miriam argumentou sobre questões como a relação da mulher e o cuidado alimentar da família, a desestruturação de hábitos e tradições pela influência do marketing industrial, soberania alimentar e sobre a importância do cozinhar.

Historicamente dentro de várias culturas a mulher sempre foi a figura principal nos afazeres do lar e principalmente na compra e preparo de alimentos, e em relação a este cenário nos dias atuais Miriam enxerga da seguinte forma: 

“Este é um trabalho invisível e quando os homens se envolvem nessas tarefas é como exceção, como ajuda. Além das mulheres serem responsabilizadas por isso sozinhas, envolvendo grande sobrecarga de trabalho, ainda não está na agenda política o debate de como diminuir ou melhorar esse trabalho.”

No trecho seguinte Nobre analisa como a indústria de alimentos e outros fatores tem pressionado e se apropriado da escolha alimentar dos indivíduos ameaçando a soberania alimentar:

“A soberania alimentar implica a proteção das nossas culturas alimentares em um mundo marcado pelo crescente controle das corporações transnacionais sobre o que somos e o que sentimos. Mas, além da estratégia de marketing, tem a ver com a forma como a indústria organiza a nossa vida. Às vezes, temos jornadas maiores, gastamos horas no trânsito, não temos transporte público, vários fatores vão reduzindo o tempo que a gente tem para cuidar de nós mesmas e das pessoas que compartilham a vida com a gente. Como ainda não conseguimos compartilhar a responsabilidade do cuidado com os homens e somos mais e mais pressionadas pela sobrecarga o alimento processado aparece como forma de resolver essa tensão.

A agrônoma relata duas perspectivas distintas sobre o mesmo tema que convergiam para o mesmo entendimento no evento da Marcha Mundial das Mulheres. Durante uma articulação entre mulheres da Via Campesina e do Movimento Feminista: 

“Uma coisa que eu gostaria muito, numa perspectiva do ideal, é que a gente exercitasse mais o cozinhar coletivamente. Uma companheira camponesa nos disse: nós queremos resgatar a cozinha e vocês querem sair correndo dela. As companheiras do movimento feminista, principalmente dos países do norte, ficaram chocadas com a ideia de voltar a cozinhar. Mas cozinhar estava proposto como um ato político: nós, mulheres que vivemos nas cidades comprando cestas de produtos de agricultoras e pagando antecipadamente”.

Para concluir Nobre falou sobre a importância do cozinhar:

“É muito importante cozinhar, porque é importante a gente entender o que são os processos de sustentabilidade davida, o que nos mantém vivos”. 

Para acessar a íntegra da entrevista e fazer o download do .pdf acesse o link.

Uma visão semelhante sobre a presença histórica das mulheres na cozinha é transmitida na fala da escritora e ativista nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Em seu TEDx intitulado “Nós Deveríamos Todos Ser Feministas”  ela problematiza que o estigma de que a cozinha doméstica é lugar de mulheres é fruto de um consenso preconceituoso. Ela exemplifica que dentro dos lares as mulheres são pressionadas a se responsabilizar pelo preparo das refeições da família, e faz um contraponto de que quando o assunto é cozinha gourmet a predominância dos chefes é masculina. 


 



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