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postado por Rafael Rioja Arantes em Sexta-feira, 28 de Abril de 2017

O comida na tela dessa semana traz uma dica cinematográfica para fechar esse mês de abril no qual tratamos sobre o conflito de interesses.

Tigers do diretor-escritor e vencedor do Oscar, Danis Tanovic, tem 90 minutos de duração e denuncia o lobby da indústria de leite artificial e seu consequente prejuízo à saúde dos bebês.

O filme é baseado na história real de Syed Aamir Raza (Ayan), um paquistanês que, ao trabalhar como representante de vendas da Nestlé em seu país, descobre que está promovendo um produto que causa diversos problemas de saúde em bebês, como desnutrição, diarreia e até mortes.

Apoiado pela sua família e pela Rede Internacional em Defesa do Direito de Amamentar (Ibfan) do Paquistão, Ayan decide denunciar as estratégias agressivas e ilegais que a empresa utiliza para promover seu produto. Como consequência, ele passa a ser perseguido por seus antigos empregadores.

O prestigiado longa foi lançado no Festival de Cinema de Toronto, Canadá, San Sebastian, Espanha e Zurique, em 2014. Em terras brasileiras, além de ter sido exibido durante a 40ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo 2016, a Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, a IBFAN Brasil e o Idec já realizaram duas sessões seguidas de debates com o idealizador do filme e representantes das entidades em 2017. Elas aconteceram no Rio de Janeiro e em São Paulo, e as entidades também planejam levar o cinedebate para a capital federal.

Além de uma boa opção de entretenimento para o fim de semana, o filme traz um exemplo concreto e verídico sobre como o conflito de interesses está presente em nossa sociedade e passa desapercebido ou é banalizado trazendo inúmeros prejuízos.

 

  


 

 



postado por Ana Maria Thomaz Maya Martins em Quinta-feira, 27 de Abril de 2017

A programação do Ideias na Mesa era falar sobre conflitos de interesse no mês de abril, mas essa programação foi feita sem sabermos ao certo que o assunto estaria na pauta de diversas discussões e conquistas do mês. Mas para inciarmos esse post é importante que antes de tentarmos perceber o conflito, tenhamos concordância sobre o que é conflito de interesses. 

Segundo a Lei nº 12.813, 16/5/2013,

Conflito de Interesse é a situação gerada pelo confronto entre interesses públicos e privados que pode comprometer o interesse coletivo ou influenciar, de maneira imprópria, o desempenho da função pública.

E relatório publicado Organização Mundial da Saúde, publicado em 2015, conceitua conflito de interesse como:

"um conjunto de condições nas quais o julgamento profissional relativo a um interesse primário [...] tende a ser indevidamente influenciado por um interesse secundário".

Esta definição se aplica igualmente a indivíduos e a instituições. É importante notar que, com esta definição, para que haja um conflito, deve simplesmente haver o potencial para uma influência indevida ocorrer, podendo abranger tanto os conflitos de interesses reais, como os percebidos. Também especifica que um conflito surge quando um interesse privado tem o potencial de influenciar indevidamente o julgamento, introduzindo outros fatores além dos relativos ao interesse público.

Isso mostra que a temática é bastante abrangente e DEVE ser discutida pelas diferentes áreas, como já ouvimos as discussões sobre os conflitos de interesse entre médicos e indústrias farmacêuticas e, mais recentemente, entre os profissionais da saúde e a indústria de órteses e próteses (“máfia das próteses”).

Mas no nosso post de hoje vamos tratar especificamente de conflitos de interesses na área da alimentação e nutrição. Isso porque a indústria de alimentos tem sido identificada como um vetor de doenças devido ao tipo de comida que comercializa, às estratégias de Marketing e à incidência política corporativista que tem exercido.

Segundo Fabio Gomes, no artigo que publicamos aqui semana passada, há um aumento na documentação sobre conflitos de interesse em alimentação e nutrição, nos últimos anos. Esse fato indica uma possível intensificação de conflitos, ampliação do reconhecimento de conflitos como tais e da inconformação frente a eles e/ou uma maior motivação para torná-los visíveis.

Tanto na área de produção de científica, como na elaboração de políticas públicas e na atuação profissional diária, a maior visibilidade e inconformação aos conflitos estão associadas à expansão de falhas nos sistemas alimentares que não tem cumprido a promessa de garantir uma alimentação adequada e saudável às populações. (A propósito, o recente caso da operação “Carne Fraca” e seus resultados, exemplificam isso muito bem!)

Assim, segundo Fabio Gomes, percebemos a existência do conflito de interesses, quando reconhecemos que problemas nutricionais estão associados às falhas em um sistema alimentar que quando desenhado, prometia uma maravilhosa revolução na vida das pessoas. Mas o que temos visto é que o atual sistema além de gerar iniquidades, tem violado vários dos nossos direitos fundamentais, todos os dias.

Um dos principais problemas dos conflitos de interesses é que interesses econômicos tendem a se sobrepor aos interesses da sociedade. Assim, a indústria  (incluindo a alimentícia, mas também a do tabaco, a farmacêutica, entre outras) busca estratégias, lícitas ou não, para defender seus interesses de venda, passando a interferir explícita (p.ex.: em nome da empresa) ou disfarçadamente (p.ex.: por meio de fundações, entidades profissionais, de pesquisa, filantrópicas que defendem os interesses das empresas que as fundaram, financiam ou controlam) no processo de formulação das políticas.

O risco dessas associações são demonstradas por vários estudos na área de psicologia que comprovam que os incentivos, oferecidos pela indústria, para a área da saúde, geram um sentimento de obrigação e lealdade à empresa patrocinadora.


Mas como identificar esses conflitos na área de alimentação e nutrição?

1. Analisar os produtos fabricados pelas empresas:

Se a empresa produz alimentos ultraprocessados, que devem ter seu consumo evitado ou reduzido, de acordo com o Guia Alimentar para a População Brasileira, já está aí a justificativa para a não interação entre esse fabricante e uma organização de alimentação e nutrição, que tem por princípios promover a Alimentação Adequada e Saudável.

Cuidado para não se perder em discussões sobre os produtos da empresa serem saudáveis ou não. Quando chegar a esse nível de discussão, passe para a análise das políticas e práticas da empresa!

2. Analisar políticas e práticas da empresa (incluindo missão, metas, objetivos, princípios, visão):

As políticas e práticas da empresa mostram seus interesses e os das organizações relacionadas.Tente descobrir se a empresa está relacionada à práticas de trabalho escravo, à destruição do meio ambiente, à desvalorização da cultura local, entre outros aspectos relacionados à infração de direitos.

Por anos os brasileiros aceitaram as carnes oferecidas pela JBS, mas hoje sabemos que além da inadequação sanitária, a empresa está associada a diversas práticas não saudáveis e inadequadas.

A Sadia é uma das empresas que compõem o Grupo JBS! Depois de assinar parceria com alguns estados e com o Jamie Oliver (o chef das boas práticas?) a empresa se propôs a realizar ações de Educação Alimentar e Nutricional em escolas brasileiras …

Analisando dessa forma, o processo passa a ser incoerente e nos explicita a existência de diversos conflitos, não acha?

Essa parceria com as prefeituras de alguns estados não foi pra frente exatamente pela percepção do conflito. Quando entendemos as políticas e práticas da empresa, podemos fazer melhores escolhas sobre com quem nos associar ou fazer parcerias.

Se ainda tiver dúvidas, no artigo escrito por Fábio Gomes, você pode encontrar uma tabela com alguns exemplos de produtos, práticas e políticas das dez maiores corporações transnacionais membros da Aliança Internacional de Alimentos & Bebidas. Essas empresas fabricam produtos e promovem práticas não recomendados como parte de uma alimentação saudável e adequada e adotam políticas que reforçam a expansão de tais produtos e práticas.


3. Considerar organizações e iniciativas nas quais as empresas se inserem:

Algumas empresas acabam se associando à ONGs, entidades filantrópicas, grupos de pesquisa, ou a alguma instituição ou organização que lhe agregue um valor social ou científico.

Dessa forma, as empresas conseguem “justificar” ou “compensar” a produção de produtos que prejudicam a saúde e/ou o exercício de práticas ruins, com atividades sociais, sustentáveis e relevantes, exercendo um “greenwashing”, ou seja, uma espécie de maquiagem verde. Esse é um termo inglês utilizado por uma organização, empresa, instituição, entre outros, com o objetivo de dar à opinião pública uma imagem responsável  dos seus serviços ou produtos, ou mesmo da própria organização. Neste caso, a organização tem, porém, uma atuação contrária aos interesses e bens ambientais. Na temática que estamos debatendo, podemos falar ainda de atuações contrárias aos interesses e bens coletivos e sociais.

Para deixar ainda mais claro como se dão esses conflitos na prática, listamos alguns exemplos:

- indústria de fórmulas infantis x promoção do aleitamento materno (o filme Tigers denuncia esse conflito em uma perspectiva muito interessante)

- publicidade infantil X promoção da alimentação adequada e saudável

- ações de Educação Alimentar e Nutricional realizadas pela indústria de alimentos, em espaços educacionais ou de promoção da saúde  X ambientes promotores de saúde

- oferta de alimentos ultraprocessados doados pela indústria a Equipamentos Públicos de SAN X DHAA

- financiamento de pesquisas e eventos na área de alimentação e nutrição X liberdade do pesquisador e compromisso com a verdade

Claro que existem muitos outros, esses são apenas alguns exemplos que nos ajudam a perceber os conflitos de forma mais real.

Também não podíamos deixar de apresentar os avanços dessa área:

  • Desde o mês passado, todo material publicado no Pubmed deve declarar sua fonte de financiamento e informações sobre a existência de conflitos de interesses durante a produção da pesquisa.

  • Já foram realizados alguns eventos de Alimentação e Nutrição sem financiamento da indústria, mostrando que é possível (World Nutrition, Conbran 2016)

Se lendo esse texto você percebeu que tem passado por situações de conflito de interesse, denuncie e peça ajuda. Você pode entrar em contato com a Frente pela Regulação da Relação Público Privada.


Referências Bibliográficas:

Abordagem para identificar e monitorar sistematicamente a atividade política da indústria de alimentos

Abordar e Gerir conflitos de interesses no planejamento e execução de programas nacionais de nutrição

Conflito de interesses na formação e prática do nutricionista: regulamentar é preciso

Conflitos de interesse em alimentação e nutrição

LEI Nº 12.813, DE 16 DE MAIO DE 2013

 


postado por Ana Maria Thomaz Maya Martins em Quarta-feira, 26 de Abril de 2017

Estamos chegando ao fim do mês de abril e claro que as discussões sobre conflitos de interesses entre a indústria de alimentos e a saúde pública brasileira não vão se esgotar. Na verdade, essa discussão tem se mostrado extremamente importante. É nesse sentido que o post do [Biblioteca do Ideias] de hoje apresenta um artigo de revisão com o seguinte título “Uma proposta de abordagem para identificar e monitorar sistematicamente a atividade política da indústria de alimentos, em relação à saúde pública usando informações publicamente disponíveis”.

Esse artigo científico tem dois objetivos:

- Propor um quadro para a classificação do CPA* da indústria de alimentos, que diz respeito à saúde pública e

- Propor uma abordagem para identificar e monitorar sistematicamente o CPA* da indústria de alimentos, a nível nacional.

*CPA: termo usado no artigo para se referir a tentativas corporativas de moldar a política do governo de forma favorável à empresa.

CPA relacionado às políticas públicas em saúde tem sido descritos a partir da perspectiva da indústria do tabaco. Esses estudos permitiram a identificação de seis estratégias de ação política corporativa, utilizadas pela indústria de alimentos para influenciar as políticas e os resultados da saúde pública:

 1. Informação e mensagens

Fazer lobby junto a tomadores de decisão; 
                Enfatizar a importância econômica da indústria;
                Promover desregulação;
                "Moldar" o debate sobre questões de alimentação e saúde;
                Formar a base de evidências sobre alimentação e saúde.

 2. Incentivo financeiro

Financiar e prover incentivos a partidos políticos e tomadores de decisão

 3. Construção de opinião pública favorável

Buscar envolvimento na comunidade;
Estabelecer relações com formuladores de políticas; mídia; formadores de opinião e organizações de saúde.

 4. Medidas legais

Usar ação legal (ou ameaçar usá-la) contra políticas públicas ou opositores;
                Influenciar o desenvolvimento de acordos comerciais e de investimento.

 5. Substituição de políticas

Desenvolver e promover alternativas às políticas (ex: auto-regulação).

 6. Fragmentação e desestabilização da oposição

Criticar os defensores da saúde pública;
                Criar vozes múltiplas contra medidas de saúde pública;
                Infiltrar-se junto a, monitorar e distrair defensores da saúde pública, grupos e organizações.

Mas é importante ressaltar que essa classificação é importante para fins de compreensão das estratégias, mas no caso da indústria de alimentos, muitas vezes elas são utilizadas de forma conjunta. Por exemplo, se a indústria alimentar emitir um comunicado de imprensa para destacar sua nova política para reduzir o teor de sal de seus produtos, ele poderia ser classificado como:

- uma estratégia de informação e de mensagem: "enfrentar o debate sobre questões relacionadas à alimentação e à saúde pública: enfatizar as ações da indústria de alimentos para abordar questões relacionadas com a alimentação e a saúde pública".

- uma estratégia de substituição de políticas. Nestes casos, a prática pode ser classificada como servindo ambas as estratégias.

Também é importante ressaltar que essa proposta de classificação não é definitiva, mas deve ser modificada à medida que surjam novas conclusões sobre o CPA da indústria alimentar.

A partir dessa perspectiva, os estudos têm mostrado que a indústria do álcool e de alimentos usam estratégias muito parecidas às do tabaco para influenciar a construção e os resultados das políticas públicas. Por isso, a análise das estratégias, desenvolvidas pela Organização Mundial da Saúde, para combater a influência da indústria do tabaco, foram traduzidas nesse artigo que apresenta a seguinte proposta para realização do monitoramento da ação política da indústria de alimentos:

A proposta feita por esse artigo para monitoramento da ação da indústria de alimentos poderia ser utilizada para destacar vários aspectos da CPA da indústria com o objetivo de aumentar a transparência relativa à potencial influência dos interesses comerciais sobre as políticas e os resultados da saúde pública. A intenção é que a abordagem de monitoramento proposta seja implementada a nível nacional, por organizações da sociedade civil, incluindo pesquisadores que trabalham na CPA e organizações não-governamentais relacionadas a interesses de saúde pública e / ou de consumidores.

A vantagem da abordagem proposta é que o monitoramento é focado nas empresas que provavelmente terão maior influência em cada país. Já uma limitação é que ela só identificará informações publicamente disponíveis, que podem ser incompletas, não representativas de todas as práticas e, muitas vezes, carecem de detalhes. CPA também se reflete através de conexões pessoais, discussões informais e outras atividades (por exemplo, almoços) Que não serão capturados com a abordagem proposta.

Para superar parcialmente esta limitação, a abordagem proposta poderia ser complementada com entrevistas com as principais partes interessadas, tais como políticos, funcionários públicos ou defensores da saúde pública, bem como denunciantes da indústria de alimentos.

O raciocínio subjacente à abordagem proposta nesse artigo é que ao monitorar e acompanhar a CPA ao longo do tempo, a transparência e a responsabilidade da indústria de alimentos podem ser aumentadas. Além disso, a implementação da abordagem de monitoramento proposta poderia ajudar a identificar mecanismos que melhorassem os interesses públicos e comerciais relacionados à política de saúde pública.

Apesar de estar o inglês, vale o acesso ao artigo que incentiva a participação social contra o lobby da indústria de alimentos no processo de planejamento das políticas sociais voltadas à saúde da população. Para ter acesso ao documento completo, clique aqui.



postado por Ana Maria Thomaz Maya Martins em Quarta-feira, 12 de Abril de 2017

Durante o mês de abril, o Ideias na Mesa tem trazido algumas discussões relacionadas aos Conflitos de Interesse em Alimentação e Nutrição. Por isso, hoje o [Biblioteca do Ideias] vai apresentar um relatório produzido pela OMS, em 2015.

Esse relatório surgiu de uma discussão entre especialistas na área de Conflito de Interesses em Alimentação e Nutrição, sobre como atingir um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que recomenda a criação de:

"Um ambiente propício para a implementação de políticas globais de alimentação e nutrição" e exorta os Estados Membros a "estabelecer um diálogo com os partidos nacionais e internacionais relevantes e formar alianças e parcerias para expandir as ações de nutrição com o estabelecimento de mecanismos adequados para proteger contra potenciais conflitos de interesse".

Esses especialistas vieram de Universidades, sociedade civil, Ministros da Saúde e representantes do Sistema das Nações Unidas.

Como primeira etapa no desenvolvimento de ferramentas de avaliação, divulgação e gestão de risco de conflitos de interesses, esta reunião teve como objetivo estabelecer a discussão, identificar áreas-chave de trabalho e iniciar a coleta de melhores práticas e estudos de caso de cada país.

Os objetivos desta consulta foram:

(i)                  desenvolver definições, critérios e indicadores para ajudar a identificar e priorizar conflitos de interesse no desenvolvimento e implementação de políticas recomendadas pelo Plano Integral de Implementação sobre nutrição materno infantil e infantil a nível nacional;

(ii)                identificar situações em que o desenvolvimento e a implementação dessas políticas envolvam interações entre governos e atores não-estatais (com foco no setor privado) que podem levar a conflitos de interesse;

(iii)               identificar uma lista de ferramentas, metodologias e abordagens que possam ajudar a identificar e gerenciar conflitos de interesse. Este foi visto como um primeiro passo essencial antes de outras ações poderem seguir.

Para subsidiar as discussões apresentadas nesse relatório, foi entregue aos participantes um documento com uma série de definições.

O primeiro define um conflito de interesses como "um conjunto de condições nas quais o julgamento profissional relativo a um interesse primário [...] tende a ser indevidamente influenciado por um interesse secundário".

 Segundo o autor do documento de base, esta definição se aplica igualmente a indivíduos e a instituições. É importante notar que, com esta definição, o julgamento de um funcionário ou instituição não precisa, de fato, ser influenciado por um interesse secundário indevido para que haja um conflito, simplesmente tem que haver o potencial para uma influência indevida ocorrer.

A definição abrange tanto os conflitos de interesses reais, como os percebidos. Ele também especifica que um conflito surge quando um interesse privado tem o potencial de influenciar indevidamente o julgamento - ou seja, introduzindo outros fatores além dos relativos ao interesse público.

O documento também propôs algumas definições mais específicas:

1. Ocorre um conflito de interesses real quando um interesse adquirido tem o potencial de influenciar indevidamente o julgamento ou ação do funcionário ou agência através dos benefícios monetários ou materiais que confere ao funcionário ou agência.

2. Um conflito de interesses aparente surge quando um interesse adquirido tem o potencial de influenciar indevidamente o julgamento ou ação do funcionário ou agência por meio das influências não monetárias ou não materiais que ele exerce sobre o funcionário ou agência.

3. Um conflito de interesses baseado em resultados surge quando um interesse adquirido, envolvido no processo de definição de políticas ou de implementação de políticas, procura resultados que são inconsistentes com o interesse público demonstrável. Isto aplica-se a questões em que há consenso sobre o interesse público e onde um interesse particular, pela natureza de sua missão, persegue objetivos que estão em contradição com esse interesse.

Os resultados esperados com o encontro e descritos nesse relatório foram encontrar:

1. Definições, critérios e indicadores para ajudar a identificar conflitos de interesse no desenvolvimento e implementação de políticas a nível nacional;

2. Exemplos de situações em que o desenvolvimento e a implementação de políticas defendidas envolvem interações entre governos e Intervenientes não estatais (sobretudo do setor privado) susceptíveis de gerar conflitos de interesses;

3. Exemplos de ferramentas, metodologias e abordagens que podem ajudar a identificar e gerenciar conflitos de interesse.

Os principais assuntos tratados pelo documento são amamentação, fortificação e suplementação e sobrepeso infantil. 

 

A discussão final reforçou pontos, como a necessidade de se concentrar na prevenção de influência indevida e conflitos de interesses.

Embora ainda exista a necessidade de mais discussões para distinguir melhor entre a identificação de riscos de influência indevida de conflitos de interesses de indivíduos e instituições, destacou-se que o objetivo final de todas as medidas deve ser a preservação da integridade institucional, independência, credibilidade e confiança pública.

Para saber mais sobre esse relatório acesse aqui.



postado por Rafael Rioja Arantes em Segunda-feira, 10 de Abril de 2017

No começo deste ano compartilhamos a experiência aplicada pela equipe do OPSAN com o título "A ressignificação do cozinhar - Um caminho para a comida de verdade", relembre aqui. Durante o mês de abril, estaremos discutindo o conflito de interesses em nossa rede, e por isso, destacamos na publicação de hoje uma das estações onde a temática foi trabalhada.

A oficina foi conduzida durante o Congresso Brasileiro de Nutrição 2016 em Porto Alegre, e contou com a participação de 50 inscritos entre nutricionistas, educadores e estudantes. Dentre as seis estações que discutiram assuntos diversos, uma foi dedicada a problematizar o conflito de interesses.

Para conduzir essa estação, a equipe decidiu que traria à tona a discussão sobre um caso real, atual e polêmico, a recente associação do chefe de cozinha Jamie Oliver, que ganhou projeção internacional ao promover uma alimentação adequada e saudável (AAS), à empresa Sadia.

A dinâmica utilizada foi a simulação de um julgamento sobre a conduta do chefe e o questionamento do julgamento era: “Há conflito de interesses na associação de um chefe de cozinha, promotor mundial da alimentação adequada e saudável, com uma multinacional, produtora de alimentos ultraprocessados, responsável por 20% da produção mundial de frangos?”. O caso dizia respeito ao Chef Jamie Oliver, mas a ideia principal era julgar o conflito de interesses e discutir a conduta de um chefe, ou qualquer outro profissional que constrói a sua imagem promovendo AAS e a utiliza associada aos interesses financeiros e mercadológicos da indústria de alimentos.

Para o julgamento, os participantes eram divididos da seguinte forma: um grupo de acusação (defendiam que existe conflito de interesse), um grupo de defesa (defendiam que não existe conflito de interesse) e um juiz. Ao escolher o juiz, antes mesmo de saber o caso, a pessoa era informada de que deveria contar com a imparcialidade para exercer esse papel.

O produto final dessa estação era o veredicto final do juiz, dizendo se existiu ou não conflito de interesse e justificando o seu posicionamento.   

Durante o julgamento coube ao facilitador moderar os grupos que passaram pela estação, e observou-se um bom engajamento da maioria dos grupos que se envolveram para embasar as argumentações de ambos os lados.

Confira a experiência completa.

  


Em 2017 vamos continuar valorizando as experiências de Educação Alimentar e Nutricional cadastradas na rede. Assim como o Ideias na Mesa, você pode ter a oportunidade divulgar uma experiência aqui no Blog. Cadastre suas experiências de EAN e compartilhe com outros usuários suas vivências, ideias e desafios. Vamos fortalecer e qualificar nossas ações pelo Brasil! 



postado por Ana Maria Thomaz Maya Martins em Quinta-feira, 23 de Março de 2017

Marion Nestle é professora no Departamento de Nutrição, Estudos Alimentares e Saúde Pública da Universidade de Nova Iorque. Nestle é autora de nove livros, incluindo Política dos alimentos: Como a indústria de alimentos influencia a Nutrição e a Saúde.

Em entrevista, Nestle fala sobre como e por que a indústria de alimentos investe na ciência da nutrição.

P: O financiamento da indústria de alimentos influencia os cientistas?

R: Sim. Estudo pós estudo e comentário pós comentário mostram que influencia. Isso tem sido visto nas pesquisas sobre o tabaco, os produtos químicos e as drogas farmacêuticas, que, nessa perspectiva, são as mais próximas aos alimentos.

A pesquisa sobre a influência da “Big Pharma” nas práticas de prescrição ou de investigação dos médicos iniciou há 40 anos. Há evidências de que um presente minúsculo da indústria farmacêutica, como uma caneta ou um bloco de papel, é suficiente para mudar as práticas de prescrição. E os médicos não conseguem perceber isso.

 

P: Eles não são conscientes sobre essa influência?

R: Não, é inconsciente. Eles acham que outras pessoas são influenciadas pela indústria, mas eles não. Eles não têm a intenção de vender um produto. Na verdade, eles negam veementemente essa prática.

Muitas vezes, eles não se aproximam das empresas de alimentos que financiam pesquisas, pois têm uma ideia de que estariam sendo comprados para garantir o cumprimento dos interesses da indústria e essa não é a intenção. A intenção era apenas para obter dinheiro para a pesquisa. O efeito não é reconhecido, não é intencional, mas inconsciente.

 

P: O que sua pesquisa mostrou?

R: Durante um ano, coletei estudos que foram financiados pela indústria de alimentos. Esta foi uma coleta casual. Dos 168 estudos que encontrei 156 deles tiveram resultados que foram favoráveis ao patrocinador e apenas 12 não.

 

P: As revisões sistemáticas concordam?

A: Apenas cerca de uma dúzia de opiniões têm olhado sobre isso. A maioria das evidências é consistente em relação aos estudos apresentados, sobre a indústria farmacêutica . Eles acham que os estudos financiados pela indústria são mais propensos a favorecer os produtos dos financiadores. Isso tem sido mostrado tantas vezes que é um dado. Exceções existem, mas são raras.

 

P: O quanto a indústria está envolvida?

R: É quase impossível obter evidências sobre isso, porque você não está lá enquanto os estudos estão sendo feitos.

Mas alguns e-mails foram reveladores. Por exemplo, em 2015, o New York Times obteve e-mails revelando que a Coca-Cola estava intimamente envolvida com pesquisadores cujos estudos visavam minimizar os efeitos das bebidas açucaradas sobre a obesidade.

 

P: E o recente estudo afirmando que o conselho de comer menos açúcar é baseado em pesquisas fracas?

R: Os autores disseram que o patrocinador do estudo, o “Instituto Internacional de Ciências da Vida (ILSI)”, financiado pela indústria de alimentos e de bebidas açucaradas, não tinha nada a ver com o estudo. Mas Candice Choi, uma repórter, tinha e-mails mostrando que o financiador tinha muito a ver com o estudo.

 

P: Os repórteres não podem pegar as falhas em estudos financiados pela indústria?

R: Até eu posso ter problemas com isso. Às vezes é óbvio, mas às vezes não é. E pode não haver nada de errado com a forma como a ciência é feita. É como a pergunta foi feita, a pesquisa foi projetada, ou como os resultados foram interpretados que conta.

Ou você poderia ter um resultado que é equívoco, mas você pode rodar os resultados de forma positiva. Eu vi muitos exemplos disso nos 156 estudos que coletei.

 

P: Quais empresas do ramo alimentício financiam pesquisas?

R: É difícil pensar em uma empresa alimentos que não. Eles descobriram que se eles têm um produto que parece ruim, eles podem fazer pesquisas para lançar dúvidas sobre essa ciência e destacar os benefícios da comida. Isso inclui açúcar, chocolate, Coca-Cola, carne bovina, carne de porco e laticínios.

 

P: E quanto a estudos sobre alimentos mais saudáveis?

R: Há também pesquisa sobre blueberries, amêndoas, caju, pecans, abacates, romãs. Assim, eles podem anunciar esses alimentos como “superfoods”. E funciona. Essa prática salvou a indústria do mirtilo de Maine. Alguém descobriu que as “blueberries” tinham um monte de antioxidantes, e eles começaram a publicidade sobre isso.

 

P: O que as pessoas podem fazer?

R: Desconfiar. Ter mais do que o nível habitual de ceticismo sobre um único estudo. Faça uma pergunta muito simples: Por que esta empresa pagou por este estudo? O que a empresa ganha com isso?

 

P: Os cientistas não precisam divulgar seu financiamento?

R: A maioria das revistas científicas exige divulgação, mas às vezes os autores esquecem. E raramente há consequências se o fizerem. E até mesmo a divulgação completa não controla o problema. Isso faz com que as pessoas pensem que tudo está sendo cuidado.

Pior, há um corpo substancial de pesquisa que mostra que a divulgação pode ter efeitos perversos. Para algumas pessoas, ver a divulgação faz com que confiem mais em um estudo, talvez porque pensem que os autores estão sendo honestos.

 

P: Você não é a favor da divulgação?

R: Absolutamente. Mas precisamos de uma declaração de divulgação unificada, para que todos tenham de revelar a mesma coisa.

 

P: Não se trata apenas de financiar um estudo?

R: Certo. Alguns conflitos são pessoais. Por exemplo, os pesquisadores teriam de dizer que são consultores da Coca-Cola, fizeram pesquisas no passado com a Coca-Cola, tiveram despesas de viagem pagas pela Coca-Cola, ou qualquer outra coisa.

E mesmo quando se trata do estudo, há gradações. Os pagamentos incluem salários para os investigadores, materiais, pagamentos aos sujeitos? Ou é algo tão pouco como o fornecimento de vitaminas?

A literatura da indústria farmacêutica diz que dar aos médicos uma caneta e uma almofada de prescrição é suficiente para mudar suas práticas de prescrição, mas se essas grandes empresas pagam viagens ou sua educação continuada, isso tem um efeito mais forte.

 

P: Algumas pessoas não acreditam que o financiamento da indústria seja apenas um tipo de viés?

R: Sim. Eles argumentam que todos os pesquisadores têm conflitos intelectuais de interesse. Isso é verdade. Você não faria ciência se não tivesse interesses intelectuais.

No entanto, esses estudos são susceptíveis de ser repetido por pessoas que têm interesses intelectuais diferentes. É por isso que na ciência, um estudo não faz uma conclusão.

Mas financiamento da indústria tem apenas uma finalidade, que é vender produtos alimentares. Essa é a principal diferença entre o viés de qualquer cientista e os vieses da indústria.

 

P: Como os cientistas respondem a você?

R: Muitos estão ofendidos. "Você está tentando dizer que todo o financiamento da indústria é ruim?", eles perguntam. Não. Estou dizendo que a pesquisa financiada pela indústria é mais provável de ser feita para fins de marketing. Enormemente mais provável.



postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 26 de Julho de 2016

A recente associação do renomado chefe internacional Jamie Oliver com a Sadia, gigante brasileira do ramo de alimentos processados, tem levantado uma série de questionamentos.

Jamie é mundialmente conhecido por suas atividades gastronômicas que incluem restaurantes, programas e inúmeros livros de receitas publicados, e nos últimos anos, ganhou ainda mais projeção ao advogar por uma alimentação mais saudável através de sua campanha "Revolução da Comida” incentivando oconsumo de preparações mais naturais e a prática do cozinhar. O chefe também utilizou a sua projeção internacional na defesa dos interesses da saúde pública quando moveu uma ação contra a rede de fast food McDonald’s e saiu vitorioso, e quando recentemente, criou uma mobilização decisiva para taxação de bebidas açucaradas em curso no Reino Unido.          

No Brasil, Jamie desembarcou por consequência de uma parceria de aproximadamente 50 milhões de reais com a Sadia, empresa do ramo de alimentos processados e congelados - a segunda maior produtora de frangos do mundo que responde por quase 20% da produção. A proposta é desenvolver, aproveitando a imagem do chef celebridade, uma linha de produtos mais “saudável” e com melhores instalações para os animais. Desde o anúncio da parceria e com a chegada do chefe para cumprir agendas publicitárias, as reações adversas começaram a repercutir na internet. Embaixadores do movimento por ele criado intitulado ‘Revolução da Comida’ se desligaram de suas funções, além de comentários de seguidores brasileiros que se dizem decepcionados com os acontecimentos recentes. Não por acaso, a Sadia patrocinou duas publicações para tentar melhorar sua imagem no site de entretenimento de grande engajamento BuzzFeed.

Essa semana, o tabloide britânico The Telegraph publicou matéria sobre a repercussão negativa que a parceria está tendo no Brasil (leia a tradução). A polêmica tem se dado no contrassenso entre o discurso de Jamie Oliver em prol de uma alimentação que valorize alimentos naturais e locais e sua parceria com a gigante dos alimentos industrializados. Atuando no Reino Unido ao lado da saúde pública ele foi vitorioso em ação judicial e posteriormente contribuiu para taxação de bebidas açucaradas. Por quê no Brasil ele adotou o caminho inverso e se aliou justamente com a indústria de alimentos?

Em depoimento para a matéria do The Telegraph, Elisabetta Recine, coordenadora do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição e professora do Departamento de Nutrição da Universidade de Brasília, afirmou que “A Sadia é uma empresa ligada a uma forma de produção intensiva. Ele traiu o discurso que vinha construindo. O Jamie Oliver não vai melhorar a Sadia, mas a Sadia vai tornar o Jamie Oliver pior”.  

Temos um Guia Alimentar para População Brasileira que é referência no mundo todo por trazer conceitos inovadores, como por exemplo a regra de ouro: prefira sempre alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias a alimentos ultraprocessados. Temos também um Marco de Referência de Educação alimentar e Nutricional com princípios para promover um sistema alimentar saudável e sustentável. De forma destoante, o discurso de Jamie deseja ecoar saúde, mas a sua escolha de parceiros parece andar na direção oposta.   


 

 



postado por Rafael Rioja Arantes em Terça-feira, 19 de Julho de 2016

Conflito de interesses, já ouviu falar? Como o próprio termo explica, é utilizado para descrever situações em que a imparcialidade da informação ou de determinadas atividades estão comprometidas pelos interesses de quem os financia. Esse assunto, e principalmente a necessidade de conversar sobre ele, vem ganhando corpo no campo da nutrição e da saúde pública em função de acontecimentos recentes.

A coluna investigativa do jornal americano Associated Press preparou um dossiê intitulado “Como a Indústria Alimentícia molda a nutrição”. Nele, são apresentados inúmeros casos de estudos financiados pela indústria de alimentos que trazem achados duvidosos, que enaltecem ingredientes de determinados produtos ou marcas. Pontos em comum entre todos eles: o conflito de interesses e a utilização dos artigos acadêmicos em campanhas de marketing.

“Crianças que comem doces tendem a pesar menos do que as que não consomem” estampou a manchete de um jornal americano. “Bebidas diet são melhores para perda de peso do que água”, foi o que o canal CBS de Denver, Colorado, noticiou. Ambos artigos foram classificados como frágeis do ponto de vista da qualidade e publicados em periódicos que são conhecidos por publicar artigos que não são considerados de “alto rigor” científico. O primeiro artigo, relacionando o consumo de doces em crianças, foi financiado pela corporação que representa os doces e chocolates ‘Butterfingers’, ‘Hershey’ e ‘Skittles’, e o segundo, relacionado a bebidas diet, pelo grupo de lobby da Coca e Pepsi.  

Inúmeros outros artigos de diferentes grupos de lobby e corporações seguem a mesma tendência, confira na tradução do dossiê feita pela equipe do Ideias mais alguns exemplos. Marion Nestle, pesquisadora em saúde pública e professora de nutrição da Universidade de Nova York, constatou que no último ano, 156 dos 168 estudos financiados pela indústria de alimentos por ela revisados mostraram resultados favoráveis aos financiadores, e acrescentou que “evidenciar vantagens nutricionais se tornou uma ferramenta de marketing crítica para a competitiva indústria de alimentos”.    

Apesar de parecer um horizonte distante, o conflito de interesses em financiamento de pesquisas está mais próximo da realidade brasileira do se imagina. No primeiro semestre deste ano foi lançado um artigo intitulado “Comparação de almoços de crianças no Brasil” que “demonstrou” que refeições para crianças comercializadas por empresas de fast food no Brasil são tão boas quanto a alimentação "média" de crianças brasileiras. Assim como no caso dos artigos norte-americanos, o artigo foi financiado pelo McDonald’s, e professores e pesquisadores brasileiros renomados da saúde pública também questionaram a qualidade científica do artigo. A professora Marion Nestle do departamento de nutrição da Universidade de Nova York que comentou o dossiê da Associated Press também publicou em seu blog denunciando o artigo brasileiro financiado pela rede de fast food.   


 

 



postado por Rafael Rioja Arantes em Quarta-feira, 13 de Julho de 2016

Imagem:MARK LENNIHAN/AP

Por: Candice Choi -ASSOCIATED PRESS: https://www.statnews.com/2016/06/02/candy-nutrition-studies/

Tradução resumida: Rafael Rioja e Elisabetta Recine  

Foi uma descoberta científica surpreendente: Crianças que comem doces tendem a pesar menos do que as que não consomem.

Menos surpreendente foi como ela surgiu. O estudo foi financiado por uma corporação que representa os doces e chocolates ‘Butterfingers’, ‘Hershey’ e ‘Skittles’, e os resultados foram intensamente utilizados nas ações de marketing da corporação ainda que o autor do estudo não tenha visto problemas nesta utilização.  

O estudo acabou servindo aos interesses da indústria de doces – e isto não é raro e foi comprovado por meio de um processo investigativo da agência de notícias , Associated Press de Nova York sobre como as indústrias de alimentos influenciam o pensamento sobre alimentação saudável.   

Uma das táticas mais poderosas da indústria é o financiamento de pesquisas em nutrição. Elas carregam o peso da autoridade acadêmica, se tornam parte da literatura científica e geram notícias nos veículos de grande circulação.

“Cereais matinais de aveia mantém você abastecido por mais tempo”, declarou um artigo de um jornal diário baseado em estudo financiado pela empresa de aveia Quaker.

“Estudo: Bebidas diet são melhores para perda de peso do que água”, foi o que o canal CBS de Denver – Colorado noticiou sobre uma pesquisa financiada pelo grupo de lobby da Coca e Pepsi.

Os estudos têm seus defensores.

As empresas dizem que seguem diretrizes para garantir a integridade científica, e que acadêmicos tem o direito de publicar não importando o teor dos resultados. Muitos pesquisadores também consideram o financiamento de indústrias importante para o avançar da ciência uma vez que a concorrência aos recursos públicos tem aumentado.

Não é surpreendente que as corporações paguem por pesquisas inclinadas a mostrar os benefícios de seus produtos, mas críticos alertam que a preocupação é que eles desvirtuem a ciência para propósitos de marketing e selecionem criteriosamente achados tendenciosos.  

A pesquisa “Crianças mais magras comem doces” é um exemplo. Ela foi desenvolvida a partir de uma base de dados governamental com informações de pesquisas de consumo alimentar nas últimas 24h. Os autores alertaram na seção referente às limitações do estudo que os dados “poderiam não refletir o consumo usual” e que  “associações de causa e efeito não poderiam ser estabelecidas”.           A notícia distribuída pela indústria não mencionou esses fatos e declarou que: “Novo estudo mostra que crianças e adolescentes que comem doces apresentam menos sobrepeso ou obesidade”. A manchete da cbsnews.com trouxe: “Doces impedem que crianças ganhem peso? ”

O intenso fluxo de recursos das indústrias para o financiamento da pesquisa em nutrição reflete, em parte, os desafios deste campo. Isolar os efeitos de um único alimento na saúde pode ser difícil, como evidenciado por inúmeros achados conflitantes.

A ambiguidade e a diversidade de informações deixam a porta aberta para o marketing.

Desde 2009, os autores do artigo sobre o consumo de doces já publicaram mais de vinte artigos financiados por corporações incluindo Kellogg e seguimentos de carne, leite e suco de frutas.

Dois são professores, O’Neil da faculdade de Nutrição de Louisiana e Theresa Nicklas da Universidade de Medicina de Baylor. O terceiro é Victor Fulgoni, um ex-executivo da Kellogg e consultor que diz em seu website apoiar empresas a desenvolverem “alegações científicas contundentes sobre seus produtos”. Os seus estudos regularmente chegam a conclusões favoráveis aos financiadores – ou como eles os chamam, “clientes”.

Em entrevista por telefone,  Fulgoni afirmou que os estudos financiados pela indústria mostram resultados favoráveis porque as empresas investem em projetos com “as melhores chances de sucesso”. Ele acrescentou ainda que qualquer tipo de financiamento cria vieses ou pressão para determinados resultados.  

“O mesmo tipo de questionamento que você está me fazendo deveria ser feito aos pesquisadores do Instituto Nacional de Saúde,” disse Fulgoni.

É verdade que os estudos financiados pela indústria não detém o monopólio sobre dos problemas em pesquisas científicas. Ainda assim, Marion Nestle, professora de nutrição da Universidade de Nova York (apesar do sobrenome não tem nenhum vínculo com a indústria) disse que diferentemente de outras pesquisas, os estudos financiados pelas indústrias “são planejados e produzidos para serem úteis como estratégias de marketing. As hipóteses são guiadas pelo marketing.”   

No último ano, 156 dos 168 estudos financiados pela indústria de alimentos revisados por Marion mostraram resultados favoráveis aos financiadores. Ela disse que evidenciar vantagens nutricionais se tornou uma ferramenta de marketing crítica para a competitiva indústria de alimentos.

“A única coisa que movimenta as vendas, ela disse, são as alegações sobre saúde”.   

Alguns documentos mostram como pesquisadores podem ser motivados por questões financeiras.  Em 2010, Niklas disse em e-mail que ela decidiu não comparecer a uma Conferência de Saúde promovida pela gigante General Mills por não querer “colocar em risco” uma proposta que o grupo planejava submeter para a empresa Kellogg. Para outro projeto, Fulgoni aconselhou O’Neil a não detalhar alguns resultados.  “Eu sugiro que a gente foque nestes dados primeiro e “comprometamos” a Kellogg por mais financiamentos antes de conduzir mais análises. ”

Em relação ao estudo de ‘crianças que consumiam doces’, no artigo havia o registro de que os financiadores não tiveram papel no “desenvolvimento, análise ou escrita do manuscrito”. Mas e-mails obtidos pela Universidade de Louisiana mostram que a “National Confectioners Association” - Associação Nacional de Fabricantes de Doces – fez algumas sugestões.

“Você vai notar que eu tirei a maioria, mas não todos os comentários deles,” escreveu Fulgoni para O’Neil sobre o estudo em 2010.

O anúncio dos resultados também foi cuidadosamente planejado. Em junho de 2011, um representante da Associação de Fabricantes de Doces mandou um artigo crítico para O’Neil sobre um professor com ligações com a indústria.

“Eu gostaria de monitorar o desenrolar dessa história, e dar distanciamento em relação ao nosso estudo. Eu não quero te colocar em um fogo cruzado da mídia que possa causar algum tumulto,” escreveu Laura Muma da agência FoodMinds – representante da Associação.

Fulgoni disse que o grupo envia os textos para os clientes para evitar erros e omissões.

Um porta-voz da Associação de Fabricantes de Doces disse que ao grupo foi dada a “cortesia de revisar o manuscrito” e que as sugestões dadas não mudaram os resultados. Ele disse que outra pesquisa sem o financiamento da indústria chegou a mesma conclusão ao analisar vários estudos.

O’Neil disse que a consultoria de Fulgoni, ‘Impacto Nutricional’, capta a maior parte de recursos para os projetos e que ela recebe ressarcimentos para custos como passagem, mas não recebe salário.

Lori Williams, representante da Faculdade de Medicina de Baylor, disse que todos os financiamentos de pesquisas passam pela Faculdade, e que a Faculdade não recebeu pagamento da Associação ou da consultoria ‘Impacto Nutricional’ para o estudo das crianças e doces na qual Nicklas foi coautor.

Os registros obtidos pela Associated Press mostraram que Niklas mandou para a consultora ‘Impacto Nutricional’ um recibo no valor de $11.500 dólares por três manuscritos em 2011, incluindo $2.500 dólares referentes a “doce”. Após receber a cópia do recibo, Williams disse que a Faculdade começou uma revisão “acerca do financiamento e desfechos desta pesquisa”.

Outro estudo conduzido pela dupla achou ligação entre grão de bico e húmus e uma melhor ingestão nutricional. A pesquisa foi financiada pela ‘Sabra Dipping Co.’ – fabricante de húmus – e na publicação está declarado que os financiadores não interferiram na escrita do trabalho.         

Mas a Sabra mandou uma sugestão que foi incorporada. Para uma linha nos benefícios de “receitas feitas com grão de bico”, por exemplo, sugerimos substituir, “como por exemplo húmus”.

Sabra disse que recebeu uma revisão como cortesia por "prover sugestões esclarecedoras e assegurar a acurácia dos dados".

O Instituto Internacional de Ciências da Vida (ILSI), que é financiado por empresas incluindo McDonald's, Red Bull e Unilever, incentiva colaboração científica com a indústria. O diretor executivo Eric Hentges declara que os patrocinadores fazem comentários para garantir excelência, mas que os autores dão a palavra final.

Em um estudo que comparava a composição do café da manhã para crianças, a Associação Americana de Produtores de Ovos, consultou um pesquisador da Universidade de Arkansas sobre as implicações de seu estudo para os produtores. "Isso pode levar a um aumento nas vendas e lucros", escreveu Jamie Baum, professor assistente de Nutrição.

Em um comunicado, Baum disse que é uma conduta  padrão dos financiadores perguntarem sobre as implicações do estudo para a indústria e que se aplica o mesmo rigor científico, independentemente do financiador.

Um representante da associação de produtores, Mitch Kanter, disse opiniões sobre implicações para a indústria são irrelevantes para a integridade da pesquisa.

Rhona Applebaum, ex chefe do departamento de ciências da Coca Cola, se referiu aos críticos da indústria como "ogros" em um grupo de e-mail com pesquisadores financiados pela indústria. Os documentos contendo a mensagem foram obtidos pela  Universidade do Oeste da Virginia, onde um dos pesquisadores é o diretor da escola de saúde pública.

Os papeis de cientistas e profissionais de marketing as vezes se confundem.

Em 2013, Steve Blair - professor da Universidade de Carolina do Sul, consultou a Coca-Cola sobre a possibilidade de financiamento de "um plano estratégico de pesquisa e planejamento de mensagem".

"Nós precisamos preparar e publicizar 'nossa mensagem' mais do que deixar a mídia e outras forças controlarem a percepção de nosso trabalho", está registrado na proposta. Neste mesmo documento se alertava sobre um estudo que estava por sair que "geraria uma grande mídia" por causa de seus achados sobre mães e obesidade.

"Em outras palavras, se você está gordo, culpe a inatividade de sua mãe," o projeto sugeria.

A estratégia de mídia das empresas incluiu a divulgação de vídeos online respondendo a críticas, artigos de revista e divulgação de “ fatos” ( ao invés de opiniões explícitas).

Blair tem sido criticado por enfatizar o papel da inatividade física na  ocorrência  da obesidade e desviar a culpa para longe dos alimentos e bebidas. Um representante da universidade, Wes Hickman, disse que os posicionamentos da Faculdade são anteriores às pesquisas de Blair, portanto, qualquer sugestão do professor sobre ignorar as implicações da dieta "são simplesmente falsas".

Em um pronunciamento, a Coca-Cola disse que esta avaliando com ela pode se aproximar a projetos de saúde para que eles possam ser "parceiros mais úteis e com maior credibilidade".              

Aveia e padrões

As empresas também financiam ensaios clínicos que testam os efeitos dos alimentos em seres humanos. A PepsiCo tem financiado  estudos que mostram os benefícios da aveia que se avolumam à medida que o elenco de produtos Quaker se expande para incluir produtos  à base de aveia, como biscoitos e "cookies de para o café da manhã"

Em 2011, a empresa financiou um estudo para testar a hipótese de que a sua farinha de aveia e cereal davam maior sensação de saciedade que o produto  Honey Nut Cheerios, que é produzido pela concorrente General Mills. Os resultados indicaram que a aveia dava saciedade mas os dados não eram conclusivos para o cereal.

"Lamento que o cereal não tenha tido o desempenho esperado, mas a hipótese foi comprovada para farinha de aveia", escreveu Frank Greenway, diretor médico da Pennington Biomedical Research Center da Universidade do Estado de Louisiana.

A empresa PepsiCo decidiu publicar apenas os resultados sobre a aveia. Em declarações, PepsiCo e os pesquisadores declararam que os outros resultados não tinham qualidade para serem publicados.

Nem todo veem desta maneira.

Muitos pesquisadores temem que a literatura científica está sendo distorcida pelos resultados que não são divulgados. Em seu registro de ensaios clínicos, o Institutos Nacional de Saúde indica que a comunicação de todos os resultados reduz o viés de publicação e facilita avaliações sistemáticas. 

"Isso é parte da ciência. Você publica o resultado que obtém. Você não apenas publica os resultados desejados ", disse Deborah Zarin, que supervisiona o registro no NIH.



postado por Rafael Rioja Arantes em Quarta-feira, 13 de Julho de 2016

Recentemente o Professor Dr. Carlos Augusto Monteiro, titular do Departamento de Nutrição da Universidade de São Paulo, em texto dirigido aos colegas da comunidade científica brasileira da área de Nutrição, expõe uma prática que está se tornando comum: a produção de evidências sobre alimentação e saúde financiada por empresas diretamente interessadas nos temas. Os resultados e as conclusões, em geral, sem muita surpresa, são positivas para os apoiadores e podem levar a recomendações e escolhas que colocam em risco a saúde da pessoas e da sociedade em geral.  Esta situação, infelizmente, tem se tornado frequente, há inúmeras denuncias no cenário internacional sobre situações claramente de conflitos de interesse e geração de conhecimento.

Conheça a comunicação do Prof Monteiro e confira o artigo internacional que ele menciona, e uma matéria investigativa sobre artigos similares divulgada pela Associated Press e traduzido pela equipe do IM, confira o link.

FSP, 16/06/2016 

Amigos e colegas da comunidade científica brasileira da área da Nutrição

Vejam uma excelente matéria sobre artigos científicos oriundos de pesquisas financiadas pela indústria de alimentos com transcrição de e-mails entre pesquisadores e a indústria mostrando como é falsa a afirmação de que esta não influencia o que vai ser publicado.

https://www.statnews.com/2016/06/02/candy-nutrition-studies/

(Link traduzido pela equipe do Ideias)   

Vejam também um exemplo recente de artigo oriundo de pesquisa financiada pela indústria de alimentos no Brasil.

http://file.scirp.org/pdf/FNS_2016042515440933.pdf

"Este artigo "demonstra" que refeições para crianças comercializadas por empresas de fast food no Brasil são tão boas quanto a alimentação "média" de crianças brasileiras. O artigo é de péssima qualidade e não cabe aqui comentá-lo. Mas, é interessante observar que o resumo do artigo começa afirmando: “Recently, revised Dietary Guidelines in Brazil included a recommendation to “avoid fast food””. No entanto, no corpo do artigo não há qualquer menção ao guia alimentar brasileiro nem este consta das referências bibliográficas. Isso sugere que a frase foi adicionada ao resumo do artigo depois que ele estava pronto. Este "deslize" nunca passaria despercebido em uma revista com um sistema sério de peer review. A propósito, a revista que publicou o artigo (30 dias após sua submissão, e sem menção de qualquer revisão) é editada pela Scientific Research Publishing Inc. Esta editora consta na lista de editoras suspeitas de práticas predatórias de publicação, ou seja, revistas que publicam qualquer coisa, desde que os autores se disponham a pagar pela publicação. Uma lista completa dessas editoras pode ser vista em https://scholarlyoa.com/publishers/.

Talvez a parte mais interessante do artigo, e, certamente, a mais reveladora, é sua seção de agradecimentos: 

Acknowledgements The authors acknowledge Equilibrium Consultancy which led this study. Funding by McDonald’s Corporation for the project was primarily to Equilibrium. The contributions of the authors were as follows—Martins C had full access to the data in the study; Martins C, Jensen NSO, Cozzolino SMF: study concept and design; Martins C: acquisition of data; Martins C, Jensen NSO: interpretation of data, drafting of the manuscript; Martins C, Jensen NSO, Cozzolino SMF; critical revisions. Competing Interests: MC and JNSO have no conflicts to report. CSMF advises McDonald’s on nutrition issues.

Os agradecimentos revelam que o estudo foi conduzido por (led by) uma empresa de consultoria (Equilibrium), que, no seu site, declara ter “expertise de marketing de saúde”. Os agradecimentos também revelam que esta empresa foi paga para fazer o estudo pela empresa de fast food McDonald’s, empresa da qual a autora sênior do artigo é consultora. A autora e consultora do McDonald’s, para meu constrangimento, é docente da USP (felizmente, não do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública, onde trabalho há 41 anos) e já foi Presidente da Sociedade Brasileira de Nutrição em várias gestões. 

Há um outro problema grave com o artigo. A filiação institucional das duas outras autoras da publicação informa filiação a departamentos da Faculdade de Saúde Pública (Nutrição e Epidemiologia), embora, de fato, elas apenas tenham feito o seu mestrado na Faculdade, concluídos em 2010 e em 2014, respectivamente. Agrava a situação o fato de que o artigo não tem qualquer relação com o tema de dissertação de mestrado das duas ex-alunas, nem com suas ex-orientadoras ou com outros docentes da Faculdade. Aconselhadas por suas ex-orientadoras, as ex-alunas se comprometeram a solicitar ao periódico que elimine do artigo a menção a qualquer filiação à Faculdade de Saúde Pública. Caso isso não se efetive, a Faculdade obviamente tomará as providências cabíveis.

Para finalizar e para concluir esta triste história, a autora que alega filiação ao Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública informa no seu perfil profissional ser gerente de projetos da empresa Equilibrium, a mesma empresa que foi paga pelo McDonald’s para realizar o estudo descrito no lamentável artigo".

Carlos Augusto Monteiro

Professor Titular do Departamento de Nutrição da Universidade de São Paulo





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